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sábado, 17 de novembro de 2012

Revoadas sobre Roma


Estive em Roma no Inverno e, preparada que estava para apreciar as artes, a arquitetura, a gastronomia, a moda, a religião – grandes atrações da cidade - fui surpreendida por um espetáculo da natureza, a murmuração de estorninhos.


Murmurações de estorninhos sobre Roma, Itália


Estorninhos são passarinhos que, na Europa, após o período de reprodução no Verão, migram em bando do Norte do Continente em direção ao Sudoeste a partir do Outono. Aparentemente, Roma é uma Meca neste roteiro, chegando a ser invadida por mais de cinco milhões dessas aves a cada ano.
 



Murmuração é como se chama um bando de estorninhos que pode conter de algumas dezenas de milhares a mais de um milhão de indivíduos. Depois de passar o dia dispersos em pequenos grupos, atrás principalmente de insetos em campo aberto, eles reúnem-se no final da tarde para juntos passarem a noite em segurança.

Murmurações de estorninhos

O balé executado no céu pelas murmurações, com movimentos e coreografias espetaculares, é uma tática de evasão de predadores, onde o indivíduo indefeso transforma-se num ser grande e extremamente ágil, difícil de ser apanhado, especialmente se evitar permanecer nas bordas da murmuração. Os passarinhos demonstram uma sincronicidade espantosa. A ciência explica que cada um deles fica de olho em outros sete à sua volta, imitando instantaneamente qualquer variação no vôo de seus vizinhos. No mar, as sardinhas fazem o mesmo.

Murmuração de estorninhos
 
Nos tempos atuais em que a sociedade dos humanos passa a se organizar e atuar cada vez mais em rede, o fenômeno da murmuração e da imitação dos estorninhos já é objeto de estudo nos processos de comunicação, disseminação e adoção de ideias e comportamentos coletivos.
 
Estorninho europeu (Sturnus vulgaris)
 
Cai a noite e os estorninhos recolhem-se a suas árvores-dormitório seguindo os indivíduos que, durante o encontro na murmuração, lhes pareceram mais bem alimentados para, na manhã seguinte, partir com eles para as áreas de comida mais farta. Como tudo tem um preço, terminado o espetáculo, a cidade eterna, transformada em enorme poleiro, enfrenta então um também eterno problema, como dizem alguns, o de lidar com os excrementos dos acrobatas voadores.
 
Portanto, estacionar debaixo das árvores durante a noite está fora de questão e ter um guarda-chuva à mão faça chuva ou faça sol, pode vir bem a calhar, especialmente numa caminhada ao longo do Rio Tibre: os estorninhos têm predileção pelas árvores que o margeiam. Que o digam os membros da patrulha da Liga Italiana de Proteção de Pássaros que, ao fim do dia, vestidos da cabeça aos pés em macacões de plástico, de máscara e munidos de megafone, tentam espantar os passarinhos das árvores tocando em alto volume, gritos de socorro da própria espécie. Alguns resistem e os que se vão, apenas transferem o problema para uma outra árvore na cidade...

Carro estacionado à beira do Rio Tibre coberto por excrementos.
Patrulha da Liga Italiana de Proteção aos Pássaros tentando espantar os estorninhos das árvores  às margens do Rio Tibre com a reprodução em alto volume de gritos de socorro da própria espécie.
Alguns estorninhos resistem e outros se vão, mas não para muito longe,
apenas transferindo o problema para outro lugar.

domingo, 16 de setembro de 2012

Meu "encontro" com Caravaggio


Durante muito tempo, a temática religiosa, onipresente na arte antiga italiana, impediu que eu a apreciasse devidamente. Nos museus e galerias, eu passava os olhos correndo pelas obras para evitar a sensação de crescente sufocamento. E as telas de Caravaggio em particular, intensas e algumas vezes até mesmo violentas, me botavam para correr.

Capela Contarelli na Igreja São Luís dos Franceses, em Roma,
decorada com telas de Caravaggio ilustrando a vida de São Mateus.

Mas lá estava eu imobilizada em minha surpresa diante de cenas da vida de São Mateus pintadas por Caravaggio. Os personagens, tão vivos, só faltaram saltar das telas ao serem iluminados repentinamente pelos holofotes da capela Contarelli na Igreja de São Luís dos Franceses em Roma. Um contraste com a penumbra do resto da igreja e com a tarde cinzenta e chuvosa lá fora.

"Vocazione di San Matteo", 1599-1600.
"San Matteo e l'angelo", 1602.
"Il Martirio di San Matteo", 1600-1601.

Aquele seria o primeiro de uma série de "contatos” que eu teria com Caravaggio e que me tornariam cada vez mais consciente e receptiva ao homem e ao artista que ele foi. Depois de décadas sem ir à Itália, eu havia chegado a Roma mais cedo naquele dia de Novembro de 2010, ano do 400º aniversário da morte do pintor, e galhardetes e cartazes espalhavam-se pela cidade anunciando exposições e eventos sobre sua obra.
Francesca Cappelletti, expert no Barroco italiano.

Dias depois, minha anfitriã convidou-me para ver uma exposição do pintor renascentista alemão Cranach na Galeria Borghese acompanhada de sua professora de história da arte, Francesca Cappelletti. Ela, eu vim saber mais tarde, é uma das grandes especialistas atuais sobre a obra de Caravaggio.

Tela de 1602, "La Cattura di Cristo" foi encomendada a Caravaggio por Ciriaco Mattei. Depois de séculos desaparecida, ela foi localizada nos anos 90 em Dublin, na Irlanda, onde está em exposição na National Gallery of Ireland.

O envolvimento de Francesca com Caravaggio começou quando ela, ainda estudante, participou de um trabalho de catalogação das obras do artista coordenado por um de seus professores. Mal sabia ela que isto iria leva-la a ser uma das protagonistas da caça a uma famosa tela do pintor, “A Captura de Cristo”, de 1602, perdida desde o final do século 18. Finalmente localizada na Irlanda na década de 90, a tela é hoje a principal obra em exposição na National Gallery of Ireland, em Dublin.

"The Lost Painting", de Jonathan Harr, foi publicado pela Random House em 2005.
Em 2006, saíram as edições italiana e brasileira, respectivamente pela Rizzoli e pela Intrínseca.

Verdadeira estória de detetive, ela acabou transformada em livro best-seller, "The Lost Painting", de autoria do americano Jonathan Harr, publicado em 2005. E foi justamente presenteando-me com a edição italiana do livro que minha anfitriã despediu-se de mim ao final de minha temporada romana.

No Centro antigo de Roma, a Isola dei Mattei, quarteirão que nos séculos 16 e 17,
reunia vários palazzi da poderosa família.

Minha anfitriã vive em um apartamento num palazzo localizado na isola dei Mattei, quarteirão no centro antigo de Roma que congrega vários palazzi construídos entre os séculos 16 e 17 pelos Mattei, família então poderosa desde a Idade Média. O palazzo era a residência de Ciriaco Mattei que, na virada do século 16 para o 17, era um dos mais importantes colecionadores e mecenas das artes de Roma. Vestígios de sua coleção de mármores antigos ainda podem ser vistos no pátio. Os dias passados ali foram impregnados por suas estórias e as de sua família, a arquitetura de sua residência refletindo uma personalidade visivelmente mais sóbria do que a do irmão Asdrubale, dono do palazzo vizinho, para mim excessivamente decorado.

Qual não foi meu espanto então, ao finalmente ler “Il Caravaggio Perduto”, descobrir que entre 1602 e 1605, patrocinado por Ciriaco, Caravaggio morou em sua casa, instalado, justamente, no mesmo andar que eu! Neste período, ele pintou várias telas por encomenda de seu patrono, inclusive o perdido e reencontrado “A Captura de Cristo”. O tema do quadro lhe foi sugerido por outro irmão de Ciriaco, o Cardeal Girolamo, que, sendo solteiro, também morava na casa de seu irmão mais velho.

Adicionalmente, essa estória adquiriu um viés brasileiro. Hoje, moram no palazzo de Ciriaco, duas brasileiras casadas com italianos, uma delas, minha anfitriã. No piano nobile, está instalada a magnífica residência de nossa Embaixada junto ao Vaticano.

Livro de Francesca Cappelletti, "Caravaggio: un ritratto somigliante",
publicado em Dezembro de 2009  pela Editora Mondadori Electa.

Em Dezembro de 2009, Francesca lançou seu livro “Caravaggio: Un ritratto somigliante”. Especializada no barroco italiano do qual Caravaggio é o expoente máximo, seu próximo livro será sobre os artistas do período  – arquitetos, escultores e pintores – que construíram e decoraram o Palazzo Pamphilj na Piazza Navona em Roma. O Palazzo Pamphilj abriga a Embaixada brasileira na Itália.