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domingo, 6 de maio de 2018

Casamento Inglês II: O bolo

A proximidade do casamento do Príncipe Harry, da Inglaterra, com a atriz americana Meghan Markle em 19 de Maio me fez lembrar de artigo que escrevi sete anos atrás para a revista "Charlô" inspirado no casamento do irmão dele, o Príncipe William, com Kate Middleton.

De lá para cá, o tradicionalíssimo bolo de casamento à base de frutas secas e conhaque com cobertura de glacê decorado vem perdendo prestígio entre o público britânico a ponto de algumas vezes ser substituído por pilhas de doughnuts ou pior, por uma parede dessas rosquinhas, de gosto extremamente duvidoso. Sou mais nossos incomparáveis bem-casados!

Típico bolo de casamento à base de frutas secas e conhaque ou rum ou vinho do porto
com cobertura de glacê decorado. O da foto foi confeccionado pela boleira inglesa
Fiona Cairns, autora do bolo de casamento do Príncipe William e Kate Middleton em 2011.


Pilhas de "doughnuts" e - oh, céus! - uma parede deles...

Agora, o bolo de frutas secas sofreu um novo golpe ao ser substituído por Meghan e Harry por um de massa de pão-de-ló com recheio à base de limão e elderflower, cobertura mole de buttercream e decorado com flores naturais em vez de decoração na própria cobertura. Obra de Claire Ptak, uma confeiteira californiana residente em Londres. Certamente, seu sabor será mais palatável e sua textura mais leve que os do forte e denso bolo de frutas. Estamos vendo uma nova tendência, menos formal, se estabelecendo?

Se fosse no Brasil, à exceção de Pernambuco onde o tradicional bolo de frutas à inglesa segue imperando, eu diria que estaríamos vendo a volta dos bolos de casamento com cobertura de suspiro mole, o tal buttercream. Me lembro de minha preocupação e cuidado durante uma viagem de São Paulo até a praia para que a decoração do bolo de casamento de uma amiga não acabasse amassada e desfigurada, isso uns vinte anos atrás. Hoje em dia a preocupação seria menor, com o domínio do glacê duro, a pasta americana, nas últimas décadas.

 
Bolos com cobertura de "buttercream" e decorados com flores naturais
da americana Claire Ptak, dona da confeitaria "Violet" de Londres,
escolhida por Meghan Markle e Príncipe Harry para fazer seu bolo de casamento.

Se Kate e William têm marcado sua atuação pelo respeito a tradições, Meghan e Harry prometem trazer inovações. Sem o peso e a responsabilidade do papel de futuros Rei e Rainha da Inglaterra, o novo casal real terá mais liberdade para serem eles mesmos. O bolo de casamento é um pequeno sinal disso.

Atualização em 20/Maio/2018: Harry e Meghan inovaram na escolha do bolo e, descobriu-se ontem, também em sua apresentação. O bolo teve seus andares distribuídos de forma assimétrica em suportes de alturas variadas. Acho que essa moda pega...!

O bolo em andares se espalhou

NOTAS:
Buttercream: Cobertura mole de suspiro. Creme resultante de manteiga batida com açúcar usada para cobrir e também rechear bolos. Pode-se adicionar claras de ovos para uma textura mais leve e essências e corantes para dar sabor e cor ao creme.
Doughnut: Rosquinha doce frita, podendo ter diferentes coberturas e recheios.
Elderflower: Xarope concentrado de flores de sabugueiro que pode ser a base de refrescos, caldas, cremes e sorvetes.

LINKS:
Boleira Fiona Cairns: http://www.fionacairns.com/
Padaria e Confeitaria Violet / Claire Ptak: http://www.violetcakes.com/

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Casamento Inglês: Bolo de Frutas


Nota da matéria "Casamento Inglês" publicada, em parte,
na Revista Charlô, Edição nr. 06, de Julho/2011

Nota da matéria "Casamento Inglês" publicada na revista "Charlô",
Edição 06, de Julho/2011.

Sendo eu de origem pernambucana, foi sempre com um pouco de estranheza que via quando criança e adolescente, bolos de casamento aqui no Sul feitos de pão de ló, chocolate, nozes, amêndoas, enfim, de qualquer tipo que não fosse aquele bolo de frutas secas denso e escuro, umedecido por alguma bebida alcoólica.

O bolo de frutas que pode ser ainda mais escuro dependendo da receita

Fora de Recife, só via aquele bolo por essas bandas meridionais em casamento de parentes e de amigos com um pé nas terras banhadas pelo Capibaribe. Mais, sabia que o bolo era sempre despachado de avião de lá para cá para a grande ocasião. Dessa forma, cheguei à conclusão de que, assim como o bolo-de-rolo, se tratava de uma guloseima típica de Pernambuco, bem como uma tradição, o hábito de guardar um pedaço – nessas terras tropicais, só mesmo em congelador apesar de todo o álcool - para comê-lo no primeiro aniversário de casamento.

Ainda adolescente, fui estudar na Inglaterra e, para meu grande espanto, descobri que, de alguma maneira misteriosa, o bolo de frutas havia cruzado o Atlântico e se disseminado entre os anglo-saxões. Aquela versão rica e escura de bolo de frutas também era típica dos bolos de casamento de lá onde pedaços eram normalmente guardados em uma lata para serem degustados como parte da comemoração do nascimento do primeiro filho.

Sem fugir à regra, o principal bolo - houve outros - do casamento de Kate Middleton e do Príncipe William foi um enorme bolo de frutas de oito andares, confeitado e decorado, criação da boleira inglesa Fiona Cairns.

A boleira Fiona Cairns e o bolo do casamento do Príncipe William e Kate Middleton

Como de praxe em casamentos reais, fatias foram distribuídas aos convidados como lembrança. Daqui a alguns anos porém, muitas, em vez de terem sido comidas, terão se tornado artigo de colecionador e serão levadas a leilão e arrematadas a preços inacreditáveis de USD 2.500 a 5.000 como tem acontecido com as fatias de bolo dos casamentos do Príncipe Charles e Lady Diana em 1981, da Rainha Elizabeth e do Príncipe Philip em 1947 e até da Rainha Vitória e do Príncipe Albert em 1840!

Fatia do bolo de frutas do casamento do Príncipe Charles e Lady Diana em 1981

Voltando à minha juventude, não demorou muito, eu acabei me dando conta de que o fruit cake era mesmo inglês, tendo ido parar sabe-se lá como no Nordeste brasileiro e ali criado raízes. Descobri indícios muitos anos depois.

A partir da primeira metade do século 19 até a primeira do 20, os ingleses formavam uma numerosa colônia estrangeira em Pernambuco, dedicando-se aos serviços de luz, telégrafos, telefone, ao transporte ferroviário, às atividades bancárias e ao comércio internacional de algodão entre outras atividades. O hábito inglês de usar o bolo de frutas como bolo de casamento acabou sendo adotado pela sociedade local. O mesmo não ocorreu no Rio e em São Paulo, talvez pela predominância da confeitaria francesa e italiana nessas cidades.

Diretores e engenheiros ingleses da Great Western que recepcionaram o Sr. Affonso Penna (o baixinho de chapéu e paletó escuro), presidente eleito do Brasil, na estação de Camaragibe em agosto de 1906 (O Malho, 18/8/1906). Publicação do web site Estações Ferroviárias do Brasil.

Mulheres jogando críquete no British Club em Recife em 1905.

Hoje, as mais famosas boleiras de Recife são as irmãs Asfora, Jane e Eliane, que vêm dando continuidade ao negócio iniciado pela mãe, D. Leoni, há quase setenta anos. Sua versão do bolo de frutas é rica em vinho do Porto e em ameixas secas, uvas passas e frutas cristalizadas.

Jane Asfora, de Recife, decorando um bolo de frutas secas.
Publicação do blog "Batom e Futebol", 3/Nov/2016.

Bolo de casamento das irmãs Asfora, de Recife. 

LINK:
Fiona Cairns Cakes: http://www.fionacairns.com/ 
Leoni Asfora Bolos: https://www.facebook.com/leonibolos