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quinta-feira, 10 de maio de 2018

Casamento Inglês II: Ainda sobre tendas e coberturas

Quando por conta de casamento real de 2011, escrevi sobre casamento inglês em geral, comentei que em minha opinião, a decoração das festas realizadas nas antigas casas e solares se beneficiaria muito com a instalação de coberturas transparentes à brasileira, uma extensão harmônica e leve do imóvel, em vez das costumeiras "tendas de circo" instaladas isoladas no meio do jardim e desconectadas de seu entorno.

 
Cobertura tradicional de festas na Inglaterra - estas, bem aprumadas.

 
Coberturas transparentes à brasileira, que funcionam como extensão da casa.

Para o casamento real agora em Maio, não sei se uma cobertura ou tenda será instalada na Frogmore House, próxima ao castelo de Windsor, onde o Príncipe Charles, pai do noivo, Príncipe Harry, oferecerá uma festa para cerca de duzentos convidados na noite do casamento. Afinal, salões não faltam lá a começar pela galeria chamada The Colonnade com portas envidraçadas dando para o jardim. Por outro lado, o estilo arquitetônico e a fachada branca da casa do séc. XVIII não oferecem grandes atrativos a serem destacados.

 
Frogmore House e a galeria The Colonnade

Nos últimos tempos, parece que a prática do uso de tendas para festas deu um salto quântico na antiga Albion, não necessariamente para melhor, talvez tenham passado do ponto: em Maio do ano passado, para abrigar a recepção do casamento de Pippa Middleton e James Matthews, ela irmã de Kate, cunhada do atual noivo Príncipe Harry, em vez da costumeira e normalmente desengonçada "tenda de circo", montaram atrás da casa dos Middleton, uma desproporcional e ainda isolada cobertura de vidro - transparente, concordo, mas para ver o quê? Para estufa, não faltaram flores, só as plantas.

 
A mega cobertura de vidro com capacidade para 350 pessoas
sentadas usada em 2017 para a festa de casamento de
Pippa Middleton e James Matthews.

Atualização 20/Maio/2018: Para a festa do casamento de Harry e Meghan ontem à noite, 19/Maio, sim, optaram por uma cobertura de vidro transparente montada no jardim para abrigar os convidados durante o jantar sentado. Os britânicos seguem sem captar o espírito das coberturas transparente à brasileira.

O que me leva a outro comentário sobre esse recente casamento dos Middleton. Fiquei com a impressão de que de alguma forma, os pais quiseram compensar Pippa pela grandiosidade do casamento real da irmã em 2011 para o que não mediram recursos nem esforços. Um exemplo disso foi a mega-cobertura. Outro, foi o sobrevôo do local da recepção por um Spitfire da 2a Guerra Mundial - uma versão reduzida do sobrevôo do Palácio de Buckingham por um Spitfire, um Hurricane e um Lancaster em 2011? Que falta de ideia.

O sobrevôo do Palácio de Buckingham por um Spitfire, um Hurricane e um Lancaster
da 2a Guerra Mundial em comemoração ao casamento real em 2011.

O sobrevôo por um Spitfire da 2a Guerra Mundial da recepção
de casamento de Pippa Middleton e James Matthews em 2017.


Se em 2011, os Middleton brilharam justamente pela discrição e moderação, eu não poderia dizer o mesmo sobre eles em 2017...  

domingo, 6 de maio de 2018

Casamento Inglês II: O bolo

A proximidade do casamento do Príncipe Harry, da Inglaterra, com a atriz americana Meghan Markle em 19 de Maio me fez lembrar de artigo que escrevi sete anos atrás para a revista "Charlô" inspirado no casamento do irmão dele, o Príncipe William, com Kate Middleton.

De lá para cá, o tradicionalíssimo bolo de casamento à base de frutas secas e conhaque com cobertura de glacê decorado vem perdendo prestígio entre o público britânico a ponto de algumas vezes ser substituído por pilhas de doughnuts ou pior, por uma parede dessas rosquinhas, de gosto extremamente duvidoso. Sou mais nossos incomparáveis bem-casados!

Típico bolo de casamento à base de frutas secas e conhaque ou rum ou vinho do porto
com cobertura de glacê decorado. O da foto foi confeccionado pela boleira inglesa
Fiona Cairns, autora do bolo de casamento do Príncipe William e Kate Middleton em 2011.


Pilhas de "doughnuts" e - oh, céus! - uma parede deles...

Agora, o bolo de frutas secas sofreu um novo golpe ao ser substituído por Meghan e Harry por um de massa de pão-de-ló com recheio à base de limão e elderflower, cobertura mole de buttercream e decorado com flores naturais em vez de decoração na própria cobertura. Obra de Claire Ptak, uma confeiteira californiana residente em Londres. Certamente, seu sabor será mais palatável e sua textura mais leve que os do forte e denso bolo de frutas. Estamos vendo uma nova tendência, menos formal, se estabelecendo?

Se fosse no Brasil, à exceção de Pernambuco onde o tradicional bolo de frutas à inglesa segue imperando, eu diria que estaríamos vendo a volta dos bolos de casamento com cobertura de suspiro mole, o tal buttercream. Me lembro de minha preocupação e cuidado durante uma viagem de São Paulo até a praia para que a decoração do bolo de casamento de uma amiga não acabasse amassada e desfigurada, isso uns vinte anos atrás. Hoje em dia a preocupação seria menor, com o domínio do glacê duro, a pasta americana, nas últimas décadas.

 
Bolos com cobertura de "buttercream" e decorados com flores naturais
da americana Claire Ptak, dona da confeitaria "Violet" de Londres,
escolhida por Meghan Markle e Príncipe Harry para fazer seu bolo de casamento.

Se Kate e William têm marcado sua atuação pelo respeito a tradições, Meghan e Harry prometem trazer inovações. Sem o peso e a responsabilidade do papel de futuros Rei e Rainha da Inglaterra, o novo casal real terá mais liberdade para serem eles mesmos. O bolo de casamento é um pequeno sinal disso.

Atualização em 20/Maio/2018: Harry e Meghan inovaram na escolha do bolo e, descobriu-se ontem, também em sua apresentação. O bolo teve seus andares distribuídos de forma assimétrica em suportes de alturas variadas. Acho que essa moda pega...!

O bolo em andares se espalhou

NOTAS:
Buttercream: Cobertura mole de suspiro. Creme resultante de manteiga batida com açúcar usada para cobrir e também rechear bolos. Pode-se adicionar claras de ovos para uma textura mais leve e essências e corantes para dar sabor e cor ao creme.
Doughnut: Rosquinha doce frita, podendo ter diferentes coberturas e recheios.
Elderflower: Xarope concentrado de flores de sabugueiro que pode ser a base de refrescos, caldas, cremes e sorvetes.

LINKS:
Boleira Fiona Cairns: http://www.fionacairns.com/
Padaria e Confeitaria Violet / Claire Ptak: http://www.violetcakes.com/

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Casamento Inglês: Torta de Ruibarbo (2)

Nota da matéria "Casamento Inglês", publicada,
em parte, na revista "Charlô", Edição 06, de Julho/2011
(2a parte)

HISTÓRIA

Dioscorides' rhubarb. Rhevbarbaro. (Rhubarb).
A renaissance illustration from Pietro Andrea Mattioli's Italian translation of
Dioscorides, ed. 3, Venice, V. Valgrisi, 1568.
Coloured drawing
Credit: Wellcome Library, London

O ruibarbo é nativo de região entre o Himalaia e a China onde 2.700 anos a.C., já se tinha notícia de seu uso como remédio para males do estômago e do intestino. Os mercadores da Rota da Seda trouxeram-no para a Europa, entre eles, Marco Polo no séc. XIII. A planta foi largamente cultivada às margens do Rio Volga, na Rússia, mas ela chegou à Grã-Bretanha somente no séc. XVI onde até meados do séc. XVIII, ela era considerada um remédio milagroso, purgativo, eliminador de excesso de sardas, cura do câncer, tudo! Custava três vezes mais do que ópio. Em 1760, descobriram que o ruibarbo rendia boas sobremesas. Que ninguém tenha pensado nisso antes deve-se, provavelmente, ao fato do açúcar, cujo uso é fundamental para contrabalançar o amargor do ruibarbo, ser muito escasso e caro até então.

Em 1817, um pé de ruibarbo foi parar acidentalmente numa pilha de estrume no Chelsea Physic Garden (jardim de plantas medicinais) de Londres e ao emergir dias depois glorioso e vermelho após o período passado no ambiente quentinho, levou à ideia de seu cultivo em estufas.

De toda maneira, já na era vitoriana (reino da Rainha Vitória, 1837-1901, ela mesma uma fã de ruibarbo, havendo até uma espécie com seu nome), o consumo do legume tido como fruta estava disseminado no País muito graças ao advento do mais palatável ruibarbo ‘forçado’, que ademais, no frio de Fevereiro, carente de outras variedades de legumes ou frutas, era a estrela isolada da estação.

Foi nesse período que se popularizaram as sobremesas com ruibarbo que compõem a memória afetiva de infância de tantos britânicos: cozido, ‘crumble’, torta, ‘fool’, tudo servido com generosas colheradas de creme de leite ou creme inglês.

Ruibarbo cozido
'Crumble' de ruibarbo
Torta de ruibarbo
'Fool' de ruibarbo

Para atender a essa crescente demanda, no final do século XIX, floresceu em Yorkshire, o ‘Triângulo Rosa’ ou ‘Triângulo do Ruibarbo” que antes da 2ª Guerra Mundial, chegou a concentrar mais de 200 produtores de ruibarbo ‘forçado’. Além do clima frio e úmido propício e solo argiloso adequado, Yorkshire tinha fartura de resíduos de lã gerados por sua indústria têxtil para servir de fertilizante para as plantas e de carvão à vontade de suas minas para fornecer calor para as estufas.

Com a guerra, o governo viu no ruibarbo uma maneira de prover fibras e vitaminas para uma nação mal-nutrida e congelou seu preço a um nível baixíssimo para torná-lo o mais acessível possível à população. De toda maneira, muitas vezes era mesmo só o que havia disponível. O resultado foi uma overdose de ruibarbo nos pratos britânicos, nem sempre do melhor, nem sempre bem preparado e muitas vezes enfiado goela abaixo de crianças e jovens. A guerra acabou em 1945, mas o racionamento do pós-guerra seguiu ainda por muitos anos e dá-lhe ruibarbo! Desnecessário dizer que muitos das gerações que viveram esse período ficaram traumatizados, tendo esgotado sua capacidade de ingerir mais um único pedaço de ruibarbo sequer.

Embora eu não tenha vivido isso, sempre tive uma má impressão de ruibarbo, não sei se por ter ouvido falar ou lido em algum lugar – Dickens, talvez? O pobre legume também ficou com fama de ser sobremesa ruim, típica de colégio interno. Enfim, o fato é que eis-me em casa de amigos no campo em pleno Inverno quando ouço que a sobremesa do almoço será torta de ruibarbo. Gelei. Mas para minha grande surpresa e alívio, me apareceu essa linda torta com um recheio vermelho que parecia regado a Campari e, para acompanhar, muito creme inglês – deliciosa combinação! E eu achava que ruibarbo era cinza! Era o outro, o ‘não-forçado’, na verdade marrom esverdeado... Há quem defenda ruibarbo de qualquer tipo alegando que no caso deste último, é só por mais açúcar.

Depois da guerra, o ruibarbo foi perdendo popularidade, mas apesar disso, até o começo dos anos 60, havia um trem que toda noite saía carregado de engradados de ruibarbo de Yorkshire em direção a Londres para abastecer o mercado em Covent Garden; o último saiu em 1966. O golpe de misericórdia foi a chegada ao mercado dos coloridos abacaxis, laranjas e bananas vindos dos trópicos relegando o ruibarbo a hortas caseiras ou comunitárias.

O ‘triângulo rosa’ em Yorkshire também sentiu: hoje restam 12 produtores, praticamente todos centenários, que continuam a produzir como nos tempos vitorianos em suas estufas escuras com colheita à luz de vela.

Passadas as décadas difíceis, o ruibarbo está experimentando um revival. Primeiro, por conta do conceito de sustentabilidade que valoriza os produtos locais vs. os importados e a ampliação de seu uso gastronômico. No caso do tipo ‘forçado’, contribuíram para isso também a disponibilidade do produto durante mais tempo durante o ano através do manejo de diferentes espécies, a obtenção junto à União Europeia de designação de origem protegida, a criação de um festival anual em Fevereiro para sua celebração e divulgação e a transformação das estufas em atração turística.

 Festival do Ruibarbo de Wakedfield, Yorkshire

A ameaça da vez são os holandeses que também produzem ruibarbo em estufas, conseguindo colocá-los no mercado algumas semanas antes dos ingleses, mas sem o mesmo sabor e textura.

Atualmente, o ruibarbo é apresentado em xarope, geleia, em calda compondo refrescos, cremes e sorvetes. Além de ser usado em uma infinidade de sobremesas, legume que é, ele também serve de acompanhamento para pratos salgados. Mais recentemente, estão misturando o xarope com bebidas alcoólicas como vodka e principalmente com gim e água tônica, uma tendência, parece. Cheers!

Receita de gin e água tônica com ruibarbo


Link:
Yorkshire Rhubarb: www.yorkshirerhubarb.co.uk


sexta-feira, 13 de abril de 2018

Casamento Inglês: Torta de Ruibarbo (1)


Nota da matéria "Casamento Inglês", publicada,
em parte, na revista "Charlô", Edição 06, de Julho/2011
(1a parte)

Nota da matéria "Casamento Inglês",
publicada na revista "Charlô", Edição 06, de Julho/2011

Quando li que o cardápio do casamento real ia ser bem britânico, logo pensei em torta de ruibarbo. Só depois lembrei-me de carneiro, Yorkshire pudding, salmão escocês.

Clássica torta de ruibarbo, normalmente servida com creme inglês

Será que ia ter? Teve! Na singela tartelette de ruibarbo com crème brulée servida no coquetel oferecido após a cerimônia do casamento.

Exemplos de 'tartellete' de ruibarbo, as duas últimas, com 'crême brulée'

Atualização em 20/Maio/2018: Não é que ontem, 19/Maio, o ruibarbo se fez novamente presente no cardápio da recepção do casamento do Príncipe Harry e Meghan Markle? Desta vez na forma de uma mini-torta de crumble de ruibarbo.


Mini torta de 'crumble' de ruibarbo

O ruibarbo na verdade é um legume, mas é visto e usado como fruta.

 

O chamado ruibarbo 'forçado' (forced rhubarb), de hastes avermelhadas, textura delicada e sabor acentuado e ligeiramente amargo é plantado no triângulo formado por Wakefield, Bradford e Leeds no condado de Yorkshire, no Norte da Inglaterra. Considerado uma iguaria, foi elevado ao patamar de alimentos e bebidas legalmente protegidos na Europa assim como o Champanhe e o presunto de Parma entre outros. Isto e o fato de demandar tanto aquecimento para suas estufas e tanta mão de obra para seu cultivo, leva esse tipo de ruibarbo a custar mais de £ 7 / quilo.

Cultivo de ruibarbo 'forçado' no condado de Yorkshire no Norte da Inglaterra.

Pois há o ruibarbo cultivado em larga escala, ao ar livre, barato, que dá quase o ano todo e este em estufas, produto típico do Inverno e começo da Primavera, algumas espécies podendo produzir ano adentro. As folhas de ambos, tóxicas, são verde escuro no primeiro e verde claro puxando para o âmbar no segundo. Comestível, o talo é esverdeado, mais rígido, fibroso e amargo em um e rosa-avermelhado, mais tenro e menos amargo no outro. O sabor de algumas espécies cultivadas em estufa se assemelha ao champanhe daí também chamarem o ruibarbo ‘forçado’ de ruibarbo ‘champanhe’.

O CULTIVO

Os ruibarbos ‘forçados’ são plantados inicialmente a campo e lá deixados por dois anos até suas raízes se tornarem fortes o suficiente para aguentarem o crescimento acelerado a que serão submetidas. No auge do frio, de preferência após uma geada, elas são levadas para estufas aquecidas e úmidas e totalmente escuras. O choque térmico, a umidade e o calor de 13° C levam as plantas a acreditarem que a Primavera chegou e a soltarem seus brotos que crescem rapidamente, a ponto de se poder ouví-los eclodindo – pop, pop...  – chegando a alturas superiores às das plantas cultivadas a campo.

Esse crescimento forçado que garante a altura, o paladar e a textura especiais e a colheita antecipada, esgota as raízes das plantas que depois da safra, precisam ser levadas de volta para o campo e deixadas lá por um ano ou dois para se recuperarem até nova ‘forçação’. Não só as estufas são escuras, como a colheita, toda manual, se dá sob a luz de velas! Isto para garantir a coloração rosa-avermelhada dos talos que desbotariam se expostos à luz solar ou elétrica.

Colheita à luz de velas

Link:
Yorkshire Rhubarb: www.yorkshirerhubarb.co.uk

Casamento Inglês: Bolo de Frutas


Nota da matéria "Casamento Inglês" publicada, em parte,
na Revista Charlô, Edição nr. 06, de Julho/2011

Nota da matéria "Casamento Inglês" publicada na revista "Charlô",
Edição 06, de Julho/2011.

Sendo eu de origem pernambucana, foi sempre com um pouco de estranheza que via quando criança e adolescente, bolos de casamento aqui no Sul feitos de pão de ló, chocolate, nozes, amêndoas, enfim, de qualquer tipo que não fosse aquele bolo de frutas secas denso e escuro, umedecido por alguma bebida alcoólica.

O bolo de frutas que pode ser ainda mais escuro dependendo da receita

Fora de Recife, só via aquele bolo por essas bandas meridionais em casamento de parentes e de amigos com um pé nas terras banhadas pelo Capibaribe. Mais, sabia que o bolo era sempre despachado de avião de lá para cá para a grande ocasião. Dessa forma, cheguei à conclusão de que, assim como o bolo-de-rolo, se tratava de uma guloseima típica de Pernambuco, bem como uma tradição, o hábito de guardar um pedaço – nessas terras tropicais, só mesmo em congelador apesar de todo o álcool - para comê-lo no primeiro aniversário de casamento.

Ainda adolescente, fui estudar na Inglaterra e, para meu grande espanto, descobri que, de alguma maneira misteriosa, o bolo de frutas havia cruzado o Atlântico e se disseminado entre os anglo-saxões. Aquela versão rica e escura de bolo de frutas também era típica dos bolos de casamento de lá onde pedaços eram normalmente guardados em uma lata para serem degustados como parte da comemoração do nascimento do primeiro filho.

Sem fugir à regra, o principal bolo - houve outros - do casamento de Kate Middleton e do Príncipe William foi um enorme bolo de frutas de oito andares, confeitado e decorado, criação da boleira inglesa Fiona Cairns.

A boleira Fiona Cairns e o bolo do casamento do Príncipe William e Kate Middleton

Como de praxe em casamentos reais, fatias foram distribuídas aos convidados como lembrança. Daqui a alguns anos porém, muitas, em vez de terem sido comidas, terão se tornado artigo de colecionador e serão levadas a leilão e arrematadas a preços inacreditáveis de USD 2.500 a 5.000 como tem acontecido com as fatias de bolo dos casamentos do Príncipe Charles e Lady Diana em 1981, da Rainha Elizabeth e do Príncipe Philip em 1947 e até da Rainha Vitória e do Príncipe Albert em 1840!

Fatia do bolo de frutas do casamento do Príncipe Charles e Lady Diana em 1981

Voltando à minha juventude, não demorou muito, eu acabei me dando conta de que o fruit cake era mesmo inglês, tendo ido parar sabe-se lá como no Nordeste brasileiro e ali criado raízes. Descobri indícios muitos anos depois.

A partir da primeira metade do século 19 até a primeira do 20, os ingleses formavam uma numerosa colônia estrangeira em Pernambuco, dedicando-se aos serviços de luz, telégrafos, telefone, ao transporte ferroviário, às atividades bancárias e ao comércio internacional de algodão entre outras atividades. O hábito inglês de usar o bolo de frutas como bolo de casamento acabou sendo adotado pela sociedade local. O mesmo não ocorreu no Rio e em São Paulo, talvez pela predominância da confeitaria francesa e italiana nessas cidades.

Diretores e engenheiros ingleses da Great Western que recepcionaram o Sr. Affonso Penna (o baixinho de chapéu e paletó escuro), presidente eleito do Brasil, na estação de Camaragibe em agosto de 1906 (O Malho, 18/8/1906). Publicação do web site Estações Ferroviárias do Brasil.

Mulheres jogando críquete no British Club em Recife em 1905.

Hoje, as mais famosas boleiras de Recife são as irmãs Asfora, Jane e Eliane, que vêm dando continuidade ao negócio iniciado pela mãe, D. Leoni, há quase setenta anos. Sua versão do bolo de frutas é rica em vinho do Porto e em ameixas secas, uvas passas e frutas cristalizadas.

Jane Asfora, de Recife, decorando um bolo de frutas secas.
Publicação do blog "Batom e Futebol", 3/Nov/2016.

Bolo de casamento das irmãs Asfora, de Recife. 

LINK:
Fiona Cairns Cakes: http://www.fionacairns.com/ 
Leoni Asfora Bolos: https://www.facebook.com/leonibolos

Casamento Inglês


Matéria publicada na revista "Charlô",
Edição nr. 06, de Julho/2011

 
 
 
Matéria "Casamento Inglês", revista "Charlô", Edição nr. 06, Julho/2011

Muitos anos atrás, ao fazer o Proficiency, exame de Inglês para estrangeiros, fiz uma redação sobre o casamento de uma amiga realizado em uma fazenda no interior de São Paulo. Naquela época, casamentos no campo, de dia, eram uma raridade, sendo a regra absoluta os casamentos realizados na cidade, à noite, as mulheres de vestido comprido e chapéu, com festa depois.

Comentei então sobre essa “inovação” local que se aproximava mais do modelo inglês de casamento, mantendo, porém, uma identidade bem brasileira: fazenda de café com casarão em estilo colonial, a noiva chegando em charrete aberta puxada por cavalos da raça mangalarga marchador, cerimônia na capelinha com suas imagens de santos, arranjos com flores tropicais, almoço servido em bufê onde não faltou picadinho nem farofa e, muito menos, nossa coleção de doces caseiros com queijo de Minas arrematados por bolo, docinhos e bem casados de praxe.

 
 
Almoço de casamento sofisticado na fazenda

Passei no exame com louvor para o que, tenho certeza, deve ter contribuído o espírito curioso de um examinador inglês sentado em seu gabinete em Cambridge, surpreendido por minha descrição. O mesmo espírito que me acometeu no sentido inverso ao ir descobrindo algumas particularidades do modo de vida inglês.

Trailer do filme "Four Weddings and a Funeral" que ilustra tão bem
e de maneira tão divertida as idiossincrasias da sociedade britânica 

Trailer de "Quatro Casamentos e um Funeral" com legendas em Português

Como sua disposição para cruzar o país de Norte a Sul e dirigir quilômetros para cumprir uma intensa agenda social no campo, aí incluídos os casamentos aos Sábados. Para o inglês, mesmo que ele viva e trabalhe na cidade, “home is in the country” (o lar é no campo) e, se eles ainda não alcançaram essa condição, é lá que eles querem chegar algum dia. Assim é que, embora também seja usual se casar na cidade, a quantidade de casamentos realizados na igrejinha da vila próxima à casa rural da família da noiva é enorme, principalmente nos meses mais quentes do ano.

Típico casamento inglês na igrejinha da vila

Foi assim que, uma vez, um grupo de convidados para um casamento em Northumberland, condado na fronteira com a Escócia, se organizou para rachar um vôo de Londres até lá. Era o primeiro serviço de táxi aéreo prestado por um dos convidados que tinha resolvido dar um destino comercial a seu Cessna. Em pleno vôo, ocorreu ao convidado piloto perguntar qual era o nome da vila onde seria realizado o casamento apenas para descobrir que ninguém havia levado o convite nem se lembrava do nome do lugar... O resultado foi uma série de vôos rasantes sobre as igrejas de várias vilas e cinco aterrisagens naquelas onde estavam acontecendo casamentos até acertarem o destino. Chegaram atrasados, no final da cerimônia, mas sua peripécia foi o assunto mais comentado pelas colunas sociais dos jornais daquela semana!

Salto para o futuro: em Maio de 2017, as atrações do casamento de James Matthews e Pippa Middleton, irmã de Kate, agora Duquesa de Cambridge e esposa do Príncipe William, incluíram um sobrevôo do local da recepção por um Spitfire da 2a Guerra Mundial. Nada que se compare ao périplo aéreo de convidados de outro casamento décadas atrás...

Justamente por conta das distâncias, o casamento pode acabar se tornando o programa de um fim de semana inteiro. Os convidados costumam se espalhar pela casa da noiva, dos vizinhos e dos amigos e por hotéis e pousadas nas redondezas e a programação gira em torno de uma miríade de drinques, almoços e jantares antes e depois do casamento.

Em algumas casas, costumes de outras eras podem resistir. Se o traje recomendado para o jantar for simples, casual, normal, “seremos só nós, os da casa e os mais chegados”, provavelmente isto significa que não se trata de black-tie e longo e, sim, de paletó e gravata e vestido curto ou tailleur. E não será de espantar se, ao final da refeição, as mulheres se retirarem e deixarem os homens à vontade para tomar seu vinho do Porto.

Tampouco será surpresa se os hóspedes da casa forem convocados a ajudar a cortar flores nos canteiros e a fazer os arranjos, da casa e da igreja. Faz tudo parte do programa, do divertimento. De fato, aqueles solares com sua arquitetura maravilhosa e mesmo os cottages pitorescos datando desde a época medieval e recheados de antiguidades dispensam maiores decorações.

Empregados de libré, hoje, acredito que só mesmo a Rainha para tê-los e, ainda assim, dentro de certos limites. Os candidatos têm que ter um determinado padrão de altura e largura, não por uma questão de simetria, mas, sim, por racionalização de custos. Cada libré custa por volta de £ 2.000 o que explica o fato de que algumas estejam em uso há mais de 100 anos! Nas demais residências, invariavelmente, seus vestígios podem ser encontrados nos belos botões de prata de blazers e paletós dos homens da família.

 Antigos botões de librés

O casamento acontece por volta das 11h da manhã e, normalmente, é seguido por um almoço. A programação, que pode incluir caminhadas por jardins e arboretos, pode ficar por aí ou se estender por uma festa baile à noite para os amigos dos noivos. Um pouco como aconteceu no Royal Wedding só que com mais convidados para a festa e menos para a cerimônia e para a recepção mais cedo.

 
O sobrevôo do Palácio de Buckingham no casamento real de 2011 por um Spitfire, um Hurricane e um Lancaster da Real Força Aérea deve ter inspirado a irmã da noiva em seu próprio casamento em 2017... 

São poucas, porém, as casas que têm grandes salões que acomodem os vários convidados de um grande casamento, sentados à mesa em um único recinto. Sorte de William e Kate que puderam contar com a galeria da casa da avó dele para receber os cumprimentos enquanto um coquetel e os bolos eram servidos aos 600 convidados para a recepção após a cerimônia. Mais ainda, para a festa para 300 à noite, puderam usar os cômodos reais com seus Velazquez, Rubens e Van Dycks para os drinques, o salão de baile para o jantar e transformar o imponente salão do trono em boate, com o imenso lustre de cristal servindo de suporte para as luzes estroboscópicas e a laser que iluminavam a pista de dança.

Recepção no Palácio de Buckingham logo após a cerimônia do casamento

Normalmente, os mortais não tão comuns recorrem a tendas montadas no jardim das casas, como aquelas de circo, geralmente brancas. O que me faz imaginar que deslumbramento seria, em vez disso, recorrer a nossos mais conhecidos toldos transparentes de maneira que se pudesse apreciar as velhas fachadas de casas pequenas e grandes, os belos jardins e os campos ingleses em toda sua glória e beleza. Ideia que deve permanecer nos sonhos considerando a escassa e cara mão de obra local...

Uma típica "marquee" instalada num jardim

Para os sem-grandes-salões ou mesmo sem-casa-no-campo, isso já não é tão inacessível pois várias dessas casas particulares vêm disponibilizando suas propriedades no mercado para a realização de eventos.

 
 
Walcot Hall, em Shropshire, é um solar georgiano do séc. 18 que disponibiliza seu salão de baile e seus lindos jardins e parque circundante para a realização de festas e eventos.

Também é de chamar a atenção, a noção de estilo dos ingleses, que às vezes pode se mostrar tão diferente da nossa. Paralelamente ao culto a certas normas e tradições, alguns parecem cultivar uma espécie de esnobismo ao contrário, demonstrando um certo desdém pelo que entendemos como moda e, ao mesmo tempo, uma certa atração fatal pela excentricidade que pode descambar para a galhofa e o mau gosto se não for exercida com espontaneidade e em seus devidos hora e lugar.

A excentricidade saudável pode levar os noivos a reservar lugar para seus cachorros bem comportados nos bancos da igreja destinados à família ou a vestir seus padrinhos em trajes de época ou a partir para a lua de mel vestidos à la oriental montados em um camelo. Já o chapéu do designer Philip Treacy usado pela Princesa Beatrice no recente casamento real e considerado pela grande maioria de gosto bastante duvidoso, acabou por ter destino dos mais dignos ao ser levado a leilão no e-Bay pela princesa: os £ 81.101 arrematados foram doados a duas organizações beneficientes, UNICEF e Children in Crisis.

O polêmico chapéu de autoria de Philip Treacy usado pela Princesa Beatrice

Diante disso, toda a família Middleton brilhou justamente pelo comportamento de quem, não podendo errar, primou pelos extremos bom gosto e discrição e delicado respeito à tradição em todos os aspectos do casamento. Como disse Rowan Pelling do jornal londrino Daily Telegraph a respeito de Pippa Middleton, irmã de Kate, “Em 29 de Abril, uma Duquesa foi criada (Kate) e uma estrela nasceu (Pippa). Show!

Pippa Middleton como dama-de-honra da irmã Kate

Em tempos cada vez mais midiáticos, ainda nos espantamos com o impacto dos casamentos reais britânicos sobre a sociedade local e a do mundo todo. Mas surpreendente mesmo é a influência duradoura sobre nós, do casamento da sem sal Rainha Vitória com o Príncipe Albert em 1840, responsável pelos conceitos de vestido de noiva volumoso e branco, arranjo de cabeça e buquê de flores de laranjeira, bolo em andares e pompa e circunstância nos casamentos reais. A mídia então, não era onipresente e onisciente como a de hoje, mas, em contrapartida, naquela época, o sol nunca se punha no onipotente Império Britânico.

O casamento, em 1840, da Rainha Vitória
e do Príncipe Albert de Saxe-Coburg e Gotha

Link:
Walcot Hall: http://walcothall.com/