sexta-feira, 11 de maio de 2018

Casamento Inglês II: A hora e a vez das flores silvestres

Anos atrás, em 2011, diante da informação de que o cardápio da recepção de casamento do Príncipe William da Inglaterra com Kate Middleton ia ser britânico por excelência, muito antes de me ocorrer rosbife ou Yorkshire pudding ou salmão, eu me perguntava se eles iriam servir torta de ruibarbo. E não é que serviram?!

Muito bem, há poucos meses, ao anunciarem o casamento do Príncipe Harry, irmão mais jovem do Príncipe William, e Meghan Markle no próximo dia 19 de Maio, me vi pensando se eles usariam florzinhas silvestres na decoração. E bingo, acertei novamente! Ah, se eu tivesse podido apostar...

Campo de flores silvestres na Inglaterra

Charles, príncipe de Gales e pai de William e Harry, é defensor da preservação dos poucos campos floridos naturais que restam na Grã-Bretanha e luta pela recuperação de outros, um movimento que vem ganhando impulso por lá. Como Harry compartilha das preocupações do pai sobre Natureza, intuí algo nesse sentido. Aliás, os noivos foram além: conforme anúncio do Palácio de Kensington, as flores serão escolhidas tendo em mente suas propriedades favoráveis à polinização “para oferecerem um ótimo habitat para abelhas e ajudarem a nutrir e sustentar ecossistemas inteiros ao promoverem um ambiente saudável e biodiverso”.

Abelhas? Zumbindo para lá e para cá durante a cerimônia e a recepção? Não entendi bem... De toda maneira, as flores e folhagens virão do Grande Parque de Windsor, adjacente ao castelo onde Harry e Meghan se casarão, e de campos e parques de outras propriedades reais espalhadas pelo Reino Unido. Os arranjos florais refletirão as paisagens silvestres originais. Ramagens e algumas flores ornamentais como rosas brancas, favoritas de Diana, a falecida mãe do noivo, e peônias, favoritas da noiva, reforçarão a decoração. Após o evento, os arranjos feitos com flores cortadas serão doados a instituições de caridade; já as plantas “pró-abelhas”, plantadas em potes e vasos, serão replantadas e espero que as abelhas entrem em cena somente após esta etapa.

Campo de narcisos às margens do Lago Virgínia no Grande Parque de Windsor
Pequeno campo de flores silvestres no Parque de St. James,
em Londres, com o Palácio de Buckingham ao fundo

Tudo isso serve de preâmbulo para um questionamento de minha parte: enquanto a família real britânica está fazendo um verdadeiro tour-de-force para produzir essa decoração com flores silvestres para o casamento do ano, em Cunha, onde moro, muito poucos prezam e se atentam à exuberância das flores silvestres locais, do campo ou do brejo, notadamente no Verão.

Desde que comecei a frequentar Cunha anos atrás, me chamam a atenção florzinhas azuis salpicando pastos de altitude e, emergindo das pedras, grupos de orquídeas cor-de-rosa encimando longas hastes, Amarílis vermelho-alaranjadas e plantas com flores roxas, talvez parentes de quaresmeiras. Nos brejos, a atração são plantas formando nuvens de flores brancas, creme, amarelas, lilás e roxas e capins com hastes terminando em penachos dos mais diferentes formatos.

Amarilis em seu habitat natural

No Verão depois que me mudei definitivamente para cá há quase três anos, uma amiga veio me visitar e os passeios levavam horas, pois ela parava o carro a cada instante para admirar, fotografar ou colher uma flor.

Ornando a mesa do lanche, arranjo improvisado de flores coletadas
ao longo dos caminhos de Cunha por uma amiga entusiasmada

Desde então, meu encantamento com as flores silvestres e capins locais vem num crescendo e atualmente venho me lançando pelas estradas rurais em expedições fotográficas com meu celular, atividade que virou verdadeira fonte de prazer e deslumbramento.

Cunha (SP) explodindo em flores e cores no Verão

O desafio agora é tentar identificar o que vejo, chamar as plantas pelo nome e conhecê-las melhor. O seguinte será compartilhar esse conhecimento e contagiar outros com meu entusiasmo. Daí para frente, estou certa, nossas flores silvestres começarão a ser devidamente apreciadas.

Encontradas em solos rochosos a maiores altitudes
(aqui a 1700 m), estas flores da família das Orquídeas,
provavelmente são Epidendrum secundum, conforme
indicou Alexandre Gibau, graduando de
Ciências Biológicas pela ESALQ de Piracicaba
 
Guaguatá, nome popular de planta típica dos brejos,
conforme identificado pelo jardineiro e sitiante local
Antônio Marciano dos Santos
Crocosmia x crocosmiiflora, identificado pela arquiteta e
paisagista Inez Veiga, é um híbrido desenvolvido na França
a partir de planta originária do Leste da África. Ornamental,
adaptou-se e disseminou-se largamente por Cunha onde é
chamado de chicotinho e também de estrela-de-fogo ou tritônia.

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