sexta-feira, 13 de abril de 2018

Casamento Inglês: Torta de Ruibarbo (1)


Nota da matéria "Casamento Inglês", publicada,
em parte, na revista "Charlô", Edição 06, de Julho/2011
(1a parte)

Nota da matéria "Casamento Inglês",
publicada na revista "Charlô", Edição 06, de Julho/2011

Quando li que o cardápio do casamento real ia ser bem britânico, logo pensei em torta de ruibarbo. Só depois lembrei-me de carneiro, Yorkshire pudding, salmão escocês.

Clássica torta de ruibarbo, normalmente servida com creme inglês

Será que ia ter? Teve! Na singela tartelette de ruibarbo com crème brulée servida no coquetel oferecido após a cerimônia do casamento.

Exemplos de tartellete de ruibarbo, as duas últimas, com crême brulée

O ruibarbo na verdade é um legume, mas é visto e usado como fruta.

 

O chamado ruibarbo 'forçado' (forced rhubarb), de hastes avermelhadas, textura delicada e sabor acentuado e ligeiramente amargo é plantado no triângulo formado por Wakefield, Bradford e Leeds no condado de Yorkshire, no Norte da Inglaterra. Considerado uma iguaria, foi elevado ao patamar de alimentos e bebidas legalmente protegidos na Europa assim como o Champanhe e o presunto de Parma entre outros. Isto e o fato de demandar tanto aquecimento para suas estufas e tanta mão de obra para seu cultivo, leva esse tipo de ruibarbo a custar mais de £ 7 / quilo.

Cultivo de ruibarbo 'forçado' no condado de Yorkshire no Norte da Inglaterra.

Pois há o ruibarbo cultivado em larga escala, ao ar livre, barato, que dá quase o ano todo e este em estufas, produto típico do Inverno e começo da Primavera, algumas espécies podendo produzir ano adentro. As folhas de ambos, tóxicas, são verde escuro no primeiro e verde claro puxando para o âmbar no segundo. Comestível, o talo é esverdeado, mais rígido, fibroso e amargo em um e rosa-avermelhado, mais tenro e menos amargo no outro. O sabor de algumas espécies cultivadas em estufa se assemelha ao champanhe daí também chamarem o ruibarbo ‘forçado’ de ruibarbo ‘champanhe’.

O CULTIVO

Os ruibarbos ‘forçados’ são plantados inicialmente a campo e lá deixados por dois anos até suas raízes se tornarem fortes o suficiente para aguentarem o crescimento acelerado a que serão submetidas. No auge do frio, de preferência após uma geada, elas são levadas para estufas aquecidas e úmidas e totalmente escuras. O choque térmico, a umidade e o calor de 13° C levam as plantas a acreditarem que a Primavera chegou e a soltarem seus brotos que crescem rapidamente, a ponto de se poder ouví-los eclodindo – pop, pop...  – chegando a alturas superiores às das plantas cultivadas a campo.

Esse crescimento forçado que garante a altura, o paladar e a textura especiais e a colheita antecipada, esgota as raízes das plantas que depois da safra, precisam ser levadas de volta para o campo e deixadas lá por um ano ou dois para se recuperarem até nova ‘forçação’. Não só as estufas são escuras, como a colheita, toda manual, se dá sob a luz de velas! Isto para garantir a coloração rosa-avermelhada dos talos que desbotariam se expostos à luz solar ou elétrica.

Colheita à luz de velas

Link:
Yorkshire Rhubarb: www.yorkshirerhubarb.co.uk

Casamento Inglês: Bolo de Frutas


Nota da matéria "Casamento Inglês" publicada, em parte,
na Revista Charlô, Edição nr. 06, de Julho/2011

Nota da matéria "Casamento Inglês" publicada na revista "Charlô",
Edição 06, de Julho/2011.

Sendo eu de origem pernambucana, foi sempre com um pouco de estranheza que via quando criança e adolescente, bolos de casamento aqui no Sul feitos de pão de ló, chocolate, nozes, amêndoas, enfim, de qualquer tipo que não fosse aquele bolo de frutas secas denso e escuro, umedecido por alguma bebida alcoólica.

O bolo de frutas que pode ser ainda mais escuro dependendo da receita

Fora de Recife, só via aquele bolo por essas bandas meridionais em casamento de parentes e de amigos com um pé nas terras banhadas pelo Capibaribe. Mais, sabia que o bolo era sempre despachado de avião de lá para cá para a grande ocasião. Dessa forma, cheguei à conclusão de que, assim como o bolo-de-rolo, se tratava de uma guloseima típica de Pernambuco, bem como uma tradição, o hábito de guardar um pedaço – nessas terras tropicais, só mesmo em congelador apesar de todo o álcool - para comê-lo no primeiro aniversário de casamento.

Ainda adolescente, fui estudar na Inglaterra e, para meu grande espanto, descobri que, de alguma maneira misteriosa, o bolo de frutas havia cruzado o Atlântico e se disseminado entre os anglo-saxões. Aquela versão rica e escura de bolo de frutas também era típica dos bolos de casamento de lá onde pedaços eram normalmente guardados em uma lata para serem degustados como parte da comemoração do nascimento do primeiro filho.

Sem fugir à regra, o principal bolo - houve outros - do casamento de Kate Middleton e do Príncipe William foi um enorme bolo de frutas de oito andares, confeitado e decorado, criação da boleira inglesa Fiona Cairns.

A boleira Fiona Cairns e o bolo do casamento do Príncipe William e Kate Middleton

Como de praxe em casamentos reais, fatias foram distribuídas aos convidados como lembrança. Daqui a alguns anos porém, muitas, em vez de terem sido comidas, terão se tornado artigo de colecionador e serão levadas a leilão e arrematadas a preços inacreditáveis de USD 2.500 a 5.000 como tem acontecido com as fatias de bolo dos casamentos do Príncipe Charles e Lady Diana em 1981, da Rainha Elizabeth e do Príncipe Philip em 1947 e até da Rainha Vitória e do Príncipe Albert em 1840!

Fatia do bolo de frutas do casamento do Príncipe Charles e Lady Diana em 1981

Voltando à minha juventude, não demorou muito, eu acabei me dando conta de que o fruit cake era mesmo inglês, tendo ido parar sabe-se lá como no Nordeste brasileiro e ali criado raízes. Descobri indícios muitos anos depois.

A partir da primeira metade do século 19 até a primeira do 20, os ingleses formavam uma numerosa colônia estrangeira em Pernambuco, dedicando-se aos serviços de luz, telégrafos, telefone, ao transporte ferroviário, às atividades bancárias e ao comércio internacional de algodão entre outras atividades. O hábito inglês de usar o bolo de frutas como bolo de casamento acabou sendo adotado pela sociedade local. O mesmo não ocorreu no Rio e em São Paulo, talvez pela predominância da confeitaria francesa e italiana nessas cidades.

Diretores e engenheiros ingleses da Great Western que recepcionaram o Sr. Affonso Penna (o baixinho de chapéu e paletó escuro), presidente eleito do Brasil, na estação de Camaragibe em agosto de 1906 (O Malho, 18/8/1906). Publicação do web site Estações Ferroviárias do Brasil.

Mulheres jogando críquete no British Club em Recife em 1905.

Hoje, as mais famosas boleiras de Recife são as irmãs Asfora, Jane e Eliane, que vêm dando continuidade ao negócio iniciado pela mãe, D. Leoni, há quase setenta anos. Sua versão do bolo de frutas é rica em vinho do Porto e em ameixas secas, uvas passas e frutas cristalizadas.

Jane Asfora, de Recife, decorando um bolo de frutas secas.
Publicação do blog "Batom e Futebol", 3/Nov/2016.

Bolo de casamento das irmãs Asfora, de Recife. 

LINK:
Fiona Cairns Cakes: http://www.fionacairns.com/ 
Leoni Asfora Bolos: https://www.facebook.com/leonibolos

Casamento Inglês


Matéria publicada na revista "Charlô",
Edição nr. 06, de Julho/2011

 
 
 
Matéria "Casamento Inglês", revista "Charlô", Edição nr. 06, Julho/2011

Muitos anos atrás, ao fazer o Proficiency, exame de Inglês para estrangeiros, fiz uma redação sobre o casamento de uma amiga realizado em uma fazenda no interior de São Paulo. Naquela época, casamentos no campo, de dia, eram uma raridade, sendo a regra absoluta os casamentos realizados na cidade, à noite, as mulheres de vestido comprido e chapéu, com festa depois.

Comentei então sobre essa “inovação” local que se aproximava mais do modelo inglês de casamento, mantendo, porém, uma identidade bem brasileira: fazenda de café com casarão em estilo colonial, a noiva chegando em charrete aberta puxada por cavalos da raça mangalarga marchador, cerimônia na capelinha com suas imagens de santos, arranjos com flores tropicais, almoço servido em bufê onde não faltou picadinho nem farofa e, muito menos, nossa coleção de doces caseiros com queijo de Minas arrematados por bolo, docinhos e bem casados de praxe.

 
 
Almoço de casamento sofisticado na fazenda

Passei no exame com louvor para o que, tenho certeza, deve ter contribuído o espírito curioso de um examinador inglês sentado em seu gabinete em Cambridge, surpreendido por minha descrição. O mesmo espírito que me acometeu no sentido inverso ao ir descobrindo algumas particularidades do modo de vida inglês.

Trailer do filme "Four Weddings and a Funeral" que ilustra tão bem
e de maneira tão divertida as idiossincrasias da sociedade britânica 

Trailer de "Quatro Casamentos e um Funeral" com legendas em Português

Como sua disposição para cruzar o país de Norte a Sul e dirigir quilômetros para cumprir uma intensa agenda social no campo, aí incluídos os casamentos aos Sábados. Para o inglês, mesmo que ele viva e trabalhe na cidade, “home is in the country” (o lar é no campo) e, se eles ainda não alcançaram essa condição, é lá que eles querem chegar algum dia. Assim é que, embora também seja usual se casar na cidade, a quantidade de casamentos realizados na igrejinha da vila próxima à casa rural da família da noiva é enorme, principalmente nos meses mais quentes do ano.

Típico casamento inglês na igrejinha da vila

Foi assim que, uma vez, um grupo de convidados para um casamento em Northumberland, condado na fronteira com a Escócia, se organizou para rachar um vôo de Londres até lá. Era o primeiro serviço de táxi aéreo prestado por um dos convidados que tinha resolvido dar um destino comercial a seu Cessna. Em pleno vôo, ocorreu ao convidado piloto perguntar qual era o nome da vila onde seria realizado o casamento apenas para descobrir que ninguém havia levado o convite nem se lembrava do nome do lugar... O resultado foi uma série de vôos rasantes sobre as igrejas de várias vilas e cinco aterrisagens naquelas onde estavam acontecendo casamentos até acertarem o destino. Chegaram atrasados, no final da cerimônia, mas sua peripécia foi o assunto mais comentado pelas colunas sociais dos jornais daquela semana!

Salto para o futuro: em Maio de 2017, as atrações do casamento de James Matthews e Pippa Middleton, irmã de Kate, agora Duquesa de Cambridge e esposa do Príncipe William, incluíram um sobrevôo do local da recepção por um Spitfire da 2a Guerra Mundial. Nada que se compare ao périplo aéreo de convidados de outro casamento décadas atrás...

Justamente por conta das distâncias, o casamento pode acabar se tornando o programa de um fim de semana inteiro. Os convidados costumam se espalhar pela casa da noiva, dos vizinhos e dos amigos e por hotéis e pousadas nas redondezas e a programação gira em torno de uma miríade de drinques, almoços e jantares antes e depois do casamento.

Em algumas casas, costumes de outras eras podem resistir. Se o traje recomendado para o jantar for simples, casual, normal, “seremos só nós, os da casa e os mais chegados”, provavelmente isto significa que não se trata de black-tie e longo e, sim, de paletó e gravata e vestido curto ou tailleur. E não será de espantar se, ao final da refeição, as mulheres se retirarem e deixarem os homens à vontade para tomar seu vinho do Porto.

Tampouco será surpresa se os hóspedes da casa forem convocados a ajudar a cortar flores nos canteiros e a fazer os arranjos, da casa e da igreja. Faz tudo parte do programa, do divertimento. De fato, aqueles solares com sua arquitetura maravilhosa e mesmo os cottages pitorescos datando desde a época medieval e recheados de antiguidades dispensam maiores decorações.

Empregados de libré, hoje, acredito que só mesmo a Rainha para tê-los e, ainda assim, dentro de certos limites. Os candidatos têm que ter um determinado padrão de altura e largura, não por uma questão de simetria, mas, sim, por racionalização de custos. Cada libré custa por volta de £ 2.000 o que explica o fato de que algumas estejam em uso há mais de 100 anos! Nas demais residências, invariavelmente, seus vestígios podem ser encontrados nos belos botões de prata de blazers e paletós dos homens da família.

 Antigos botões de librés

O casamento acontece por volta das 11h da manhã e, normalmente, é seguido por um almoço. A programação, que pode incluir caminhadas por jardins e arboretos, pode ficar por aí ou se estender por uma festa baile à noite para os amigos dos noivos. Um pouco como aconteceu no Royal Wedding só que com mais convidados para a festa e menos para a cerimônia e para a recepção mais cedo.

 
O sobrevôo do Palácio de Buckingham no casamento real de 2011 por um Spitfire, um Hurricane e um Lancaster da Real Força Aérea deve ter inspirado a irmã da noiva em seu próprio casamento em 2017... 

São poucas, porém, as casas que têm grandes salões que acomodem os vários convidados de um grande casamento, sentados à mesa em um único recinto. Sorte de William e Kate que puderam contar com a galeria da casa da avó dele para receber os cumprimentos enquanto um coquetel e os bolos eram servidos aos 600 convidados para a recepção após a cerimônia. Mais ainda, para a festa para 300 à noite, puderam usar os cômodos reais com seus Velazquez, Rubens e Van Dycks para os drinques, o salão de baile para o jantar e transformar o imponente salão do trono em boate, com o imenso lustre de cristal servindo de suporte para as luzes estroboscópicas e a laser que iluminavam a pista de dança.

Recepção no Palácio de Buckingham logo após a cerimônia do casamento

Normalmente, os mortais não tão comuns recorrem a tendas montadas no jardim das casas, como aquelas de circo, geralmente brancas. O que me faz imaginar que deslumbramento seria, em vez disso, recorrer a nossos mais conhecidos toldos transparentes de maneira que se pudesse apreciar as velhas fachadas de casas pequenas e grandes, os belos jardins e os campos ingleses em toda sua glória e beleza. Ideia que deve permanecer nos sonhos considerando a escassa e cara mão de obra local...

Uma típica "marquee" instalada num jardim

Para os sem-grandes-salões ou mesmo sem-casa-no-campo, isso já não é tão inacessível pois várias dessas casas particulares vêm disponibilizando suas propriedades no mercado para a realização de eventos.

 
 
Walcot Hall, em Shropshire, é um solar georgiano do séc. 18 que disponibiliza seu salão de baile e seus lindos jardins e parque circundante para a realização de festas e eventos.

Também é de chamar a atenção, a noção de estilo dos ingleses, que às vezes pode se mostrar tão diferente da nossa. Paralelamente ao culto a certas normas e tradições, alguns parecem cultivar uma espécie de esnobismo ao contrário, demonstrando um certo desdém pelo que entendemos como moda e, ao mesmo tempo, uma certa atração fatal pela excentricidade que pode descambar para a galhofa e o mau gosto se não for exercida com espontaneidade e em seus devidos hora e lugar.

A excentricidade saudável pode levar os noivos a reservar lugar para seus cachorros bem comportados nos bancos da igreja destinados à família ou a vestir seus padrinhos em trajes de época ou a partir para a lua de mel vestidos à la oriental montados em um camelo. Já o chapéu do designer Philip Treacy usado pela Princesa Beatrice no recente casamento real e considerado pela grande maioria de gosto bastante duvidoso, acabou por ter destino dos mais dignos ao ser levado a leilão no e-Bay pela princesa: os £ 81.101 arrematados foram doados a duas organizações beneficientes, UNICEF e Children in Crisis.

O polêmico chapéu de autoria de Philip Treacy usado pela Princesa Beatrice

Diante disso, toda a família Middleton brilhou justamente pelo comportamento de quem, não podendo errar, primou pelos extremos bom gosto e discrição e delicado respeito à tradição em todos os aspectos do casamento. Como disse Rowan Pelling do jornal londrino Daily Telegraph a respeito de Pippa Middleton, irmã de Kate, “Em 29 de Abril, uma Duquesa foi criada (Kate) e uma estrela nasceu (Pippa). Show!

Pippa Middleton como dama-de-honra da irmã Kate

Em tempos cada vez mais midiáticos, ainda nos espantamos com o impacto dos casamentos reais britânicos sobre a sociedade local e a do mundo todo. Mas surpreendente mesmo é a influência duradoura sobre nós, do casamento da sem sal Rainha Vitória com o Príncipe Albert em 1840, responsável pelos conceitos de vestido de noiva volumoso e branco, arranjo de cabeça e buquê de flores de laranjeira, bolo em andares e pompa e circunstância nos casamentos reais. A mídia então, não era onipresente e onisciente como a de hoje, mas, em contrapartida, naquela época, o sol nunca se punha no onipotente Império Britânico.

O casamento, em 1840, da Rainha Vitória
e do Príncipe Albert de Saxe-Coburg e Gotha

Link:
Walcot Hall: http://walcothall.com/

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

William Shakespeare turns 450

... and is worth an estimated US$ 650 million today!

In celebration of William Shakespeare's 450th birthday, CNN used Brand Finance research to highlight his impressive career and brand value of US$ 650 million.


sábado, 21 de setembro de 2013

Fazendeira do asfalto

Mais uma vez, me encontro numa encruzilhada profissional onde desejo de coração encontrar uma nova maneira de trabalhar, de me sustentar, que seja a expressão de meus anseios mais íntimos.

Tantas vezes assisti a vídeos ou li postagens sobre agricultura urbana, mas agora, ao fazê-lo novamente, me pergunto, poderia o caminho ser por aí, um dia? Não penso apenas no cultivo de legumes e hortaliças, mas também no plantio de mudas de árvores - frutíferas também, por que não? - nativas do bairro em que moro. Afinal, um de meus anseios ainda não atendidos é o de plantar um arboreto...

A palestra de Mohamed Hage no TEDxUdeM (Universidade de Montreal, Canadá) em Maio/2012 me remete à cobertura de meu prédio, 360° de cimento sem uso. E a um amigo inovador e pioneiro que transformou em orquidário, o telhado de sua casa em plena São Paulo. Mais um item para o cardápio, flores?


Tantas vezes sonhei em um dia comprar a cobertura do condomínio, reforma-la e me mudar para lá; quem sabe ela mereça outro uso - melhor?

Minha mente divaga...


domingo, 26 de maio de 2013

Celebrando as origens


O Museu de História Natural em Londres, Inglaterra.


Programão em Londres para o público dos 8 aos 80 (e mais): o Museu de História Natural inaugurou em Novembro, a nova galeria Cadogan que abriga os 22 objetos mais relevantes de sua imensa coleção de mais de 70 milhões de ítens tanto em termos de seu impacto para o desenvolvimento da ciência quanto por sua importância histórica, cultural e estética.

A nova Galeria Cadogan, aberta em Novembro 2012,
para a exposição da deslumbrante coleção de tesouros do museu.

Os tesouros vão de rocha da Lua ao dente fossilizado do primeiro dinossauro identificado, um Iguanodon, passando por delicadíssimos modelos em vidro de espécies marinhas ao livro mais caro do mundo, "Birds of America" de John James Audubon, publicado entre 1827 e 1838 - este, um "favorito" meu e do colecionador que pagou USD 11,5 milhões por um raro exemplar levado a leilão pela Sotheby’s de Londres em 2010.

 
1. Fragmento de rocha da Lua de cerca de 3,7 bilhões de anos coletada pela Apollo 17, última missão a Lua.
2. Dois dos primeiros dentes de Iguanodon encontrados, de 141 a 137 milhões de anos.
3. Um modelo ampliado de radiolária Aulosphaera elegantissima Haeckel, confeccionada em1862 pelo tcheco Leopold Blaschka.
4. Volume do livro "The Birds of America" de John James Audubon, mostrando a lâmina 1, um peru selvagem. Brown thrashers, ave canora da família do sabiá, e papagaios da Carolina.

A peça mais valiosa é o fóssil de Archaeopteryx, o primeiro pássaro de que se tem notícia, e fundamental para a comprovação de que os pássaros modernos evoluíram dos dinossauros. Isto serviu para reforçar a Teoria da Evolução de Charles Darwin E de Alfred Russel, co-autor da teoria como se pode constatar através de parte de sua coleção de insetos. Aliás, como não poderia deixar de ser, uma edição original do livro de Darwin “A Origem das Espécies”, publicado em 1859, é um dos tesouros abrigados pela nova galeria.

Fóssil Archaeopteryx lithographica de cerca de 147 milhões de anos.
Insetos da coleção pessoal de Alfred Russel Wallace, coletados no Sudeste da Ásia entre 1854 e 1862.
Raro volume da 1a edição do livro de Charles Darwin, "Sobre a Origem das Espécies", publicado em 1859.

Fazendo companhia aos fósseis de Iguanodon e de Archaeopteryx, está um ítem mais recente, o crânio de 50 mil anos de nosso primo Homo neanderthalensis, o primeiro a ser descoberto, em 1848.

Crânio de cerca de 50 mil anos de Homo neanderthalensis, de uma fêmea adulta, o primeiro a ser encontrado,  em 1848 em Gibraltar.

Ainda identificando origens, desta vez de métodos e processos, a coleção em exibição de plantas secas e prensadas de George Clifford, de 1730, serviu de base para que o botânico sueco Carl Linnaeus elaborasse o método de classificação e nomeação de espécies, vegetais e animais, ainda em uso nos dias de hoje. O primeiro nome do binômio adotado por ele identifica o gênero e o segundo, a espécie. Foi assim que os “primos” tomate e beringela viraram Solanum lycopersicum e Solanum melongena.

Folhas de plantas secas da coleção de George Clifford, preparadas na década de 1730.

Entre as peças selecionadas, encontra-se uma simples casca de ovo de pinguim Imperador. Trata-se de um tributo ao esforço e empenho humano em nome da Ciência como os demonstrados pelo time de três cientistas da trágica expedição do Capitão inglês Robert Falcon Scott ao Pólo Sul em 1911: para coletar apenas cinco ovos, por cinco semanas eles fizeram uma penosa caminhada de ida e volta, no escuro e sob temperaturas de -40° C, a uma colônia dessas aves distante 100 km de seu acampamento.

Ovo de pinguim imperador coletado em 1911 pela expedição de Scott a Antártica. O orifício mostra onde o embrião foi retirado para estudo.

A concha de Nautilus entalhada pelo holandês Johannes Belkien no fim do séc. 17 tem valor cultural inestimável por integrar a fabulosa coleção de Sir Hans Sloane que, após sua morte em 1753, foi adquirida pela Nação e deu origem (mais uma vez) ao acervo do Museu Britânico e, posteriormente, ao do Museu de História Natural. Uma homenagem ao espírito curioso do colecionador e a seu desejo de compartilhar com acadêmicos e com o grande público as maravilhas do engenho e da criatividade humana e do mundo natural.

Concha de Nautilus pompilius entalhada pelo artista holandês Johannes Belkien no fim do séc. 17; uma das mais belas peças da vasta coleção de Sir Hans Sloane que deu origem aos acervos do Museu Britânico e do Museu de História Natural.