terça-feira, 15 de novembro de 2011

Os Jetsons não são o futuro

Anteontem à noite, mas já ontem, 14/Nov, de manhã, em Baikonur no Cazaquistão, a Soyuz TMA-22 partiu em direção à ISS – International Space Station (Estação Espacial Internacional), levando a bordo os astronautas russos Anton Shkaplerov, Anatoly Ivanishin e o americano Dan Burbank. A previsão é que eles cheguem ao destino hoje tarde de – nossa – noite. Quanta coisa conta e transmite esse curto vídeo do lançamento.





Primeiro, como o tempo pode mudar radicalmente de uma hora para outra em Baikonur nessa época do ano. Vi uma foto da Soyuz na plataforma de lançamento em 11/Nov, dia lindo e ensolarado, nem um traço de geada, mas eis que poucos dias depois, o foguete teve que ser lançado em meio à maior tempestade de neve. Mais incrível ainda é lembrar que para o lançamento dos ônibus espaciais, o céu tinha que estar claro. Já a Soyuz é mesmo um veículo off-road (?), na verdade, mais para um Fuscão que encara qualquer estrada.

Quando a gente vê os astronautas espremidinhos dentro dela, então, mais parece um Fuscão decorado para parecer um avião de paraquedistas. E os três??? Parecem estar nem aí para a decolagem, nada treme, estão ocupados lendo seus manuais de vôo – em papel, alguns acondicioandos num nicho na lateral -, fazendo suas anotações a caneta, apertando os controles no painel com uma haste de metal já que não podem se inclinar por conta dos cintos de segurança. Enquanto aguardam os primeiros estágios do foguete desacoplar, tamborilam os dedinhos enluvados. Incongruente mesmo em ambiente tão caseiro só mesmo seus trajes Sokol pressurizados com capacete.

Complementando a cena com um toque kitsch, um dos passarinhos personagem do jogo eletrônico “Angry Birds” balança suavemente na ponta de um cordão, será que pendurado num espelhinho retrovisor??? Alta tecnologia que nada, o brinquedo tem uma função: é o método instantâneo e certeiro de astronautas e controladores de vôo verificarem que a Soyuz entrou em órbita: é quando ele começa a flutuar, reparem! Que coincide perfeitamente com a desacoplagem do 3º estágio do foguete.

Na ISS, o ambiente não é muito diferente: vestindo calças de sarja e camisetas pólo, os três tripulantes assistem ao lançamento da Soyuz TMA-22 pelo computador no laboratório Destiny da NASA. Em meio à parafernália de cabos e equipamentos eletrônicos, fotos do bebê e do cachorro queridos. E eu achava que o futuro ia se parecer com as estórias em quadrinhos dos Jetsons...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Uma janela para a Terra

Foram quase 13 anos de construção da ISS – International Space Station (Estação Espacial Internacional), iniciados em Novembro de 2008 e encerrados com a última missão do programa do ônibus espacial realizada em Julho/2011, a STS-135, usando a nave Atlantis.

No entanto, o último acréscimo arquitetônico a ISS ocorreu em Fevereiro/2010, durante a missão STS-130, quando o ônibus espacial Endeavour levou em seu compartimento de carga, a “cereja do bolo”: o módulo Tranquility e sua Cupola, uma estação de controle robótica de fabricação italiana com 6 janelas à sua volta e uma janela central em sua extremidade.

Agarrada pelo braço robótico Canadarm2, a Cupola é realocada de bombordo para o lado da ISS voltado para a Terra onde está o recém instalado módulo Tranquility. Os astronautas da NASA Terry Virts, piloto da STS-130, e Kathryn Hire, especialista da missão, moveram a Cupola operando o braço robótico da ISS a partir de controles dentro do laboratório Destination.


O astronauta da NASA Nicholas Patrick, especialista da missão STS-130, participa da 3a e última sessão de atividade extra-veicular (EVA). Durante a caminhada espacial de 5h48’, Patrick e o astronauta Robert Behnken (não aparece na foto), especialista da missão, removeram parafusos de contenção e capas de isolamento de cada uma das 7 janelas da Cupola.


O módulo Tranquility da ISS e sua Cupola.


Um astronauta feliz: Nicholas Patrick aparece numa da janelas da Cupola com ar de satisfação pela missão cumprida...


Com o módulo acoplado a ISS no lado voltado para a Terra, a Cupola proporciona uma visão de 360° de nosso planeta. Se eu fosse astronauta, seria lá, com a cara grudada na janela, que eu gostaria de passar meu tempo e é para lá, tenho certeza, que os astronautas de verdade flutuam sempre que sobra um tempinho.


A primeira foto tirada de dentro da Cupola: como pano de fundo, o deserto do Saara.

Vista a partir da Cupola, a costa da Argélia entre as cidades de Dellys e Argel. Foto tirada com uma câmera digital e uma lente de 28 mm.

Outro astronauta feliz: Soichi Noguchi da JAXA, engenheiro de vôo da missão ISS-022, fazendo pose dentro da Cupola.

Soichi Noguchi mandando ver na fotografia enquanto da janela central da Cupola primeiro vê-se as montanhas Burhan Budai Shan ocidentais (canto inferior direito), com a Baía e lagos de Qaidam (centro), pouco ao Norte da cidade de Golmud, Província de Qinghai, China. Depois, mais fotos e mais montanhas...

Com a cabeça nas altas nuvens

Descobri que sou uma criatura visual e que imagens de fato tornam o aprendizado mais fácil e um prazer. Com as fotos dos astronautas, não tem sido diferente: é um mundo de informação e descobertas que teria sido impossível absorver sem a curiosidade e o deslumbramento proporcionado pelas fotos que eles tiram.

A primeira aula foi sobre nuvens notilucentes, nuvens iridiscentes que se formam no Verão a 80-90 km de altura nas altas latitudes. Como são muito altas, elas ainda refletem a luz do Sol quando já é noite na superfície da Terra.

Elas também são chamadas de nuvens mesosféricas polares, pois se formam justamente nesta camada da atmosfera que fica entre 50 e 86 km acima da superfície da Terra, com temperatura por volta de -117° C. Seu brilho é resultado de maiores ou menores concentrações de gelo que refletem com maior ou menor intensidade a luz do Sol, o chamado albedo.

A órbita da ISS se estende entre as latitudes 52°N e 52°S o que, combinado a suas vistas oblíquas a grande altitude através da atmosfera, torna a ISS uma plataforma ideal para a observação dessas nuvens.



Imagens de nuvens notilucentes sobre a Antártica de 30/Jan/2010 por Soichi Noguchi da Expedição 22 a ISS.


Nuvens notilucentes sobre a Mongólia em 22/Jul/2008 em imagem da tripulação da Expedição 17 a ISS: http://earthobservatory.nasa.gov/IOTD/view.php?id=8967.

domingo, 23 de outubro de 2011

Empatia orbital

Essas fotos dos astronautas há anos estão disponíveis no site da NASA “The Gateway to Astronaut Photography of Earth” que funciona, porém, mais como um arquivo do que como uma publicação. O fato de um astronauta passar a publicá-las numa rede social à medida que ia fotografando, acrescidas de um pequeno comentário e, mais, com espaço disponível para os apartes e perguntas dos leitores, conferiu instantaneamente a estes, uma visão orbital de nosso planeta.

Também aproximou enormemente astronautas e Terráqueos. A primeira foto postada por Soichi foi de Port au Prince, no Haiti, em 24 de Janeiro de 2010, dias depois do terremoto devastador de 12 de Janeiro. Descobrimos que, lá em cima, os astronautas não estavam alheios aos eventos aqui na Terra, mas super antenados e compartindo nossas preocupações.

Port au Prince, Haiti, dias após o terremoto de 12 de Janeiro de 2010.

No sentido inverso, passamos a compartilhar o dia a dia dos astronautas e a descobrir que o ambiente super hi-tec em que eles vivem é humanizado por surpreendentes santinhos, canetas, cadernos e blocos de anotação, isso para não falar do vestuário: prosaicas camisetas pólo e calças de sarja. Por toda a parte, muito velcro, para que tudo não saia flutuando ISS adentro.

O astronauta Jeffrey Williams (à dir.) da NASA, comandante da Expedição 22; astronauta Soichi Noguchi (centro) da JAXA (Agência Japonesa de Exploração Espacial) e o astronauta T.J. Creamer da NASA, ambos engenheiros de vôo, com o SFA (Pequeno Braço Fino) do JEMRMS (Sistema de Manipulador Remoto do Módulo Experimental Japonês) no laboratório Kibo da ISS.

As fotos do cotidiano dos astronautas também podem ser vistas desde sempre no site da NASA, mas, de repente, de meros espectadores, passamos a fazer parte da tripulação. Nunca estivemos tão perto do sonho de ser, nós mesmos, astronautas, ainda que por tabela!

Em órbita

Interessada que sou em assuntos relacionados a Sustentabilidade e Meio Ambiente, há alguns anos me programei para receber notícias via RSS sobre o assunto. No caso de meu provedor, esse assunto estava incluído no tema mais abrangente “Ciências” e foi assim que eu também passei a receber um monte de artigos sobre múmias do Egito, dinossauros, micróbios, experimentos científicos e... espaço/astronomia.

Nebulosa da Borboleta em imagem do telescópio espacial Hubble.

Por mais fascinantes que fossem, eu automaticamente deletava as notícias que não eram de meu interesse específico para não acabar me afogando naquele mar de informação. A exceção eram os artigos sobre astronomia, invariavelmente ilustrados por imagens espetaculares de nebulosas e galáxias e de outros planetas, especialmente de Marte e Saturno, que eu não conseguia ignorar.

No começo de 2010, uma notícia me chamou a atenção: o astronauta japonês Soichi Noguchi da JAXA (Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial), membro da Expedição 22 à ISS – International Space Station (Estação Espacial Internacional), havia começado a publicar no Twitpic, álbum de fotografias do Twitter, as fotos que ele tirava do espaço. Foi assim que, deslumbrada que estava e com os olhos voltados para os confins do universo, dei meia volta para contemplar as fotos igualmente espetaculares de nosso frágil e belo mundo. Fui fisgada!


Imagem da ISS contra o Mar Mediterrâneo, Mar Adriático e o Mar Jônico e, à sua volta, Itália, Albânia e Grécia; mais adiante, o Mar Egeu e o Mar Negro. Tirada em 19/Ago/07 a partir do ônibus espacial Endeavour durante a missão STS-118.